Sobre o Zoo e a iniciativa privada

July 8, 2015

Com relação à polêmica de repassar o parque zoológico de Sapucaia do Sul para a iniciativa privada, seja no modelo de concessão, ou privatização, o MGDA posiciona-se contrário. Questões ambientais são de competência do Estado, e não da iniciativa privada. Ao mesmo tempo, entendemos que os funcionários do zoológico estão sendo subaproveitados, atuando em uma instituição ultrapassada que em nada colabora com os grandes desafios ambientais que enfrentamos Além disso, incentiva a ideia de que somos superiores e podemos dispor da natureza e dos animais para satisfazer nossos caprichos e curiosidades.

ZOOLÓGICO DE SAPUCAIA DO SUL E 23 UNIDADES DE CONSERVAÇÃO INDO PARA A INICIATIVA PRIVADA

 

O governo do estado está querendo cortar gastos e enxugar a máquina pública, aparentemente não importando as consequências. A verba repassada para os órgãos ambientais do RS é de 0,3% do orçamento, o que já é ridiculamente baixo. Passar a gestão administrativa e de infraestrutura de lazer e turismo para a iniciativa privada, seja no modelo de privatização ou concessão, no caso específico do zoológico, parece uma ação desastrada e impensada.

 

Além da questão trabalhista, que também envolve os funcionários das 23 unidades de conservação ambiental, o caso do zoológico de Sapucaia do Sul é mais complexo, pois coloca na pauta mais de mil animais que estão sob a guarda e a tutela do Estado.

Com relação a esse debate, o MGDA se solidariza com os funcionários desses locais, e manifesta sua contrariedade com relação a essa proposta. A competência para tratar de assuntos ambientais é do Estado. Essa responsabilidade não deve ser repassada para a iniciativa privada.

 

Nossa área de atuação é focada na defesa dos direitos dos animais, e sobre isso esclarecemos:

1. Em primeiro lugar, entendemos que os zoológicos, tal como se apresentam, estão na contra mão do movimento ambiental. A ideia de manter animais em cativeiro para o deleite do público é ultrapassada, cruel e antiética. Com tantas urgências relacionadas aos animais silvestres, manter funcionários e uma infraestrutura para fazer o que o zoológico prioritariamente faz (lazer barato para a população) é desperdício de tempo, dinheiro e recursos humanos.

 

2. A proposta do governo, em repassar o zoológico para a iniciativa privada demonstra o quanto o Estado não sabe o que fazer com ele. Não há nenhum projeto de educação ambiental, não há nenhuma perspectiva, nenhum objetivo, nada. Apenas vê o zoológico como uma fonte de despesa, um estorvo que deve ser passado adiante. E a situação ainda se agrava se pensarmos que no “pacote”, junto com o zoológico, estão 23 unidades de conservação ambiental, ou seja, meio ambiente é estorvo e produto de barganha para o governo do estado.

 

3. A falta de preocupação com as questões ambientais se reflete nos problemas ambientais concretos que enfrentamos, tanto com relação aos animais silvestres nativos, vítimas do tráfico, ou em vias de extinção, quanto com a devastação ambiental, que os está expulsando de seus habitats e dizimando as populações de nossa fauna nativa. Não precisamos de animais exóticos, importados, caros, ou negociados com outras instituições, para não cumprirem nenhuma finalidade concreta e não acrescentarem nenhuma solução às nossas dificuldades.

 

4. Com relação ao uso e exploração de animais exóticos para ficarem expostos em uma vitrine, vale lembrar que investimentos para renovação de “plantel”, e sua manutenção, significam recursos que poderiam ser empregados em educação ambiental e preservação de nossa fauna nativa. Isso, sem falar que os animais não devem “servir” para satisfazer o ser humano, seja na condição que for, muito menos, e simplesmente, para lazer.

5. Entre as principais funções de um zoológico temos: 1) Diversão, 2) Educação, 3) Conservação de espécies:

 

a. Diversão: Atualmente usar um animal para diversão não faz mais sentido, é antiético, pois a sociedade já tem condições de compreender que enjaular criaturas diferentes não é mais uma opção de lazer aceitável. Com a evolução do Homem, e a inclusão dos animais na comunidade moral, manter animais enjaulados apenas para deleite e satisfação da curiosidade de alguns, mostra-se cruel e indigno.


b. Falar em educação ambiental dentro de um zoológico, nos moldes atuais, é no mínimo contraditório, pois a base da verdadeira educação ambiental é o respeito a natureza (na qual se incluem os animais). Quais seriam as noções de educação transmitidas a uma criança mostrando seres indefesos, enjaulados, privados da convivência com outros de sua espécie, tristes, estressados, descontextualizados, e deprimidos na condição de servir como mero entretenimento? Urge atenção maior à educação ambiental, evitando o contrassenso de se tentar educar, com base no respeito à vida e a liberdade das outras espécies, ao mesmo tempo em que os animais (natureza) são apresentados como coisas, as quais devem estar à disposição do homem, como se as suas vidas não tivessem razão e valor em si mesmas.

A educação ambiental deve mostrar que o ser humano é parte integrante do meio ambiente. Não é superior perante outros seres, e por isso não tem o direito de prender, nem isolar um indivíduo de seu grupo, roubando-lhe o direito de viver uma vida natural em benefício de uma simples curiosidade de um público em geral alheio e desinteressado. Sim, porque se ilude quem pensa que aqueles visitantes que vão passear e fazer churrasco no zoológico aos finais de semana tem algum interesse, ou apreendem alguma coisa de “educação ambiental”, ao contrário, pois demonstram falta de educação ao atirar alimentos e outros objetos dentro das jaulas, provocando e irritando os animais, o que lhes causa sérios prejuízos.


c. Preservação de espécies: Missão importante e fundamental, mas questionável manter um banco genético de zebras ou rinocerontes, ou realizar pesquisas em espécies exóticas, em um zoológico de Sapucaia do Sul, Rio Grande do Sul, Brasil, tão distante do continente de origem desses animais. Mais útil seria o investimento na reprodução de animais nativos silvestres em vias de extinção, contando com a parceria da Secretaria Estadual de Meio Ambiente, a quem incumbiria a preservação dos habitats dessas espécies para sua futura reintrodução na natureza. Mais útil seria garantir um espaço digno de vida para aqueles animais vítimas do tráfico que não tem mais condições de voltarem à natureza. Mais útil seria, inclusive, manter espaços maiores para aqueles animais exóticos, recolhidos por maus tratos, ou abandonados, que não tem “habitat natural” no Brasil, mas que precisam ser mantidos dignamente. Mais útil seria parar com a reprodução de animais exóticos objetivando liberar espaços para aqueles que verdadeiramente necessitam. Acreditamos que a mão de obra especializada empregada nos zoológicos está sendo subaproveitada, perdendo a oportunidade de realizar missão mais nobre e útil ao meio ambiente em que vivemos.


6. Entendemos importante esclarecer que não recebemos denúncias de maus tratos contra os animais do zoológico de Sapucaia do Sul, da mesma forma que não temos nenhuma queixa ou crítica ao trabalho dos profissionais que lá atuam. Apenas acreditamos que esses profissionais estão sendo subaproveitados, deixando de realizar o que o seu potencial permitiria, e que resultaria em maior ganho ao meio ambiente e aos animais. Nesse caso, nosso debate não é em como os animais são tratados, mas sim o fato de estarem em um local onde não deveriam estar. Não importa se retirados da natureza para ficarem expostos à visitação, ou se frutos de uma procriação de pais que já vivem em cativeiro. Reproduzir um animal com o objetivo de ser perpetuamente preso é, no mínimo, cruel. 


7. Finalmente, partindo do princípio de que todo o animal existente no País é tutelado pelo Estado sendo, portanto, de sua responsabilidade, não é aceitável que se passe todos aqueles animais para o setor privado, que visará lucro como meio e fim. Questão ambiental é competência do Estado e não deve servir para enriquecer a iniciativa privada.

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